O nosso livro

O nosso livro

Florbela Espanca

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito…
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
“Versos só nossos, só de nós os dois!…”

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Dia da Língua Portuguesa

Muito pode ser dito sobre a Língua Portuguesa, porém, prefiro a língua em movimento. Melhor deixar que escritores os mostrem o universo da linguagem.

Os três vídeos selecionados são parte da série de documentários “Encontro marcado“, produzidos pelo escritor Fernando Sabino.

Categorias:Hora do Lanche

Autorretrato – Repertório Poético III

Os primeiros poemas que compõem o Repertório Poético dos alunos do 1º ano 1 do Ensino Médio foram apresentados, lidos e discutidos em sala de aula.

Eu (Florbela Espanca)

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do sonho, e desta sorte

Sou a crucificada…a dolorida…

 

Sombra de névoa tênue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

 

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

 

Poema de Sete faces

Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

 

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

 

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

 

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


Autorretrato (Fernando Pessoa)

Quando olho para mim não me percebo.

Tenho tanto a mania de sentir

Que me extravio às vezes ao sair

Das próprias sensações que eu recebo.

 

O ar que respiro, este licor que bebo,

Pertencem ao meu modo de existir,

E eu nunca sei como hei de concluir

As sensações que a meu pesar concebo.

 

Nem nunca, propriamente reparei,

Se na verdade sinto o que sinto.

Eu Serei tal qual pareço em mim?

 

Serei Tal qual me julgo verdadeiramente?

Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,

Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

 

Autorretrato (Manuel Bandeira)

Provinciano que nunca soube

Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna

A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa

Envelheceu na infância da arte,

E até mesmo escrevendo crônicas

Ficou cronista de província;

Arquiteto falhado, músico

Falhado (engoliu um dia

Um piano, mas o teclado

Ficou de fora); sem família,

Religião ou filosofia;

Mal tendo a inquietação de espírito

Que vem do sobrenatural,

E em matéria de profissão

Um tísico profissional.

 

Com licença poética (Adélia Prado)

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Assaltaram a Gramática

 “O poeta é a pimenta do planeta.”

Repertório Poético – II (Atualizado)

Começamos hoje a confecção do portifólio que abrigará o Repertório Poético dos alunos do 1º ano 1. (Já estão no slide as imagens dos trabalhos dos alunos.)

 

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Repertório Poético

Os alunos do 1º ano 1 estão formando seu repertório poético. A  intenção é conhecer a biografia de alguns dos poetas brasileiros mais representativos, além de sua produção literária. Para ampliar as pesquisas incluímos alguns poetas não brasileiros.

Este é o primeiro passo para organizarem uma pequena seleção de poetas e poemas e não ficarem presos às escolas ou períodos literários.

Adélia Prado   Álvares de Azevedo   Ana Cristina Cesar   Ariano Suassuna  

Augusto dos Anjos Camões  Carlos Drummond de Andrade   Casimiro de Abreu  

Cassiano Ricardo   Castro Alves   Cecília Meireles  Cora Coralina   Cruz e Souza  

Fernando Pessoa   Ferreira Gullar   Florbela Espanca   Francisco Alvin  

Gonçalves Dias   Haroldo de Campos   Henriqueta Lisboa  Hilda Hilst 

João Cabral de Melo Neto  Jorge de Lima   José Paulo Paes   Lindolf Bell

Manoel de Barros   Manuel Bandeira   Mario de Andrade   Marcos Konder Reis

Mário Quintana  Murilo Mendes   Octavio Paz    Oswald de Andrade  

Pablo Neruda  Paulo Leminski  Pedro Kilkerry   Vinicius de Moraes  

Waly Salomão   William Shakespeare

Cantiga da Ribeirinha

 

Em Portugal, o Trovadorismo teve início com a “Cantiga da Ribeirinha”, também conhecida como “Cantiga de guarvaia”, escrita em 1189 ou 1198 e atribuída a Paio Soares de Taveirós. Segundo a tradição literária, essa cantiga – primeiro texto de literatura portuguesa – teria sido oferecido a Maria Pais Ribeiro, a “Ribeirinha”, amante de d. Sancho, rei de Portugal.
A cantiga de Ribeirinha foi a primeira imagem da mulher na literatura portuguesa.

No mundo nom me sei parelha,

Mentre me for’ como me vai,

Ca já moiro por vos – e ai!

Mia senhor branca e vermelha

Queredes que vos retraia

Quando vos eu vi em saia!

Mau dia me levantei,

Que vos enton non vi fea!

 

E, mia senhor, dês aquel di’,ai!

Me foi a mi mui mal,

E vos, filha de don Paai

Moniz, e bem vos semelha

D’aver eu por vos guarvaia,

Pois eu, mia senhor, d’alfaia

Nunca de vos ouve nen ei

Valia d’ua correa.

Notas Explicativas

Non me sei parelha: não conheço quem se compare a mim

Mentre: enquanto

Moiro: morro

Senhor: senhor ou senhora

Branca e vermelha: alava e de faces rosadas

Retraia: retrate, pinte, descreva

Em saia: sem manto

Que vos enton non vi fea: pois percebi que não era feia

Des: desde

Bem vos semelha: bem vos parece

D’aver eu por vos: receber por seu intermédio

Guarvaia: veste de luxo

Alfaia: presente, brinde

Valia d’ua correa: qualquer coisa de poço valor

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